Fotógrafa Camilla Watson: Retratando a Memória dos Pescadores no Cais do Ginjal

A fotógrafa britânica Camilla Watson encontrou uma maneira única e emocionante de preservar a memória dos pescadores que resistem no Cais do Ginjal, em Almada. O seu projeto, intitulado “A Maré e o Pescador”, consiste em retratar estes trabalhadores do mar e expor as suas imagens de uma maneira peculiar, conectando-as à maré do rio Tejo.

A Relação Entre os Pescadores e a Maré

Quando Camilla Watson começou a fotografar os pescadores do Cais do Ginjal, percebeu rapidamente que o seu projeto deveria estar intrinsecamente relacionado à maré. Assim, os retratos não foram simplesmente expostos no cais, mas sim dispostos estrategicamente na pequena praia entre o Jardim do Rio e o Museu Naval. Esta escolha permitiu que as fotografias dialogassem com a água do Tejo, tornando-as visíveis apenas durante parte do dia. Quando a maré sobe, os retratos ficam submersos; quando desce, as imagens emergem entre a espuma das ondas.

Esta abordagem peculiar confere um novo significado às imagens, pois a maré passa a controlar tanto o acesso aos retratos como o momento em que as pessoas podem apreciá-los. Segundo Camilla, “a maré controla tudo”, inclusive a experiência de visualização das fotografias.

Os pescadores escolhidos por Camilla para figurar na primeira fase do projeto são Luís, Vítor e Arnaldo. Além de serem retratados, também participaram na instalação das fotografias na pequena praia, seguindo as indicações da fotógrafa. Esta colaboração entre a artista e os próprios pescadores reforça o objetivo do projeto de preservar a memória e dar protagonismo a estes trabalhadores do mar.

A Memória dos Pescadores Gravada em Pedra

Os retratos selecionados para a primeira fase do projeto “A Maré e o Pescador” foram impressos em pedra calcária. Esta escolha confere um aspecto estético interessante às imagens, mas também serve como um “estudo piloto em termos técnicos”. A fotógrafa experimentou diferentes materiais anti-abrasivos para verificar qual deles resistiria melhor aos efeitos da água e do sal. Um dos principais desafios encontrados é a exposição à luz solar, razão pela qual as imagens foram viradas para nascente.

Camilla Watson imprimiu pessoalmente os retratos usando o processo tradicional de câmara escura no seu estúdio em Almada Velha. Este trabalho minucioso e detalhado exige precisão, uma vez que não é possível reutilizar a pedra. Para a artista, esses retratos em pedra calcária são uma forma de devolver à maré o poder que ela possui, além de serem uma homenagem aos pescadores e à história da região ribeirinha.

Os Pescadores como Guardiões da Memória

Para Camilla Watson, os pescadores que resistem no Cais do Ginjal são os guardiões da memória de uma frente ribeirinha que, em tempos passados, pulsava de movimento e atividade. Muitos destes pescadores têm uma conexão profunda com a área, pois trabalharam nas antigas fábricas que ali existiam, hoje reduzidas a ruínas. Outros, mesmo oriundos de outros lugares como Lisboa, Alverca, Barreiro e Corroios, encontraram no Cais do Ginjal um refúgio tranquilo, alheios aos turistas que passam diariamente.

Apesar de muitas vezes serem usados como cenário para as fotografias dos turistas, estes pescadores parecem invisíveis às pessoas que passeiam pela área. Com o projeto “A Maré e o Pescador”, Camilla Watson deseja dar voz e visibilidade a estes trabalhadores do mar, que muitas vezes são esquecidos ou ignorados. Quer ouvir as suas histórias e permitir que sejam protagonistas de uma narrativa que geralmente não têm a oportunidade de contar.

O Futuro Incerto dos Pescadores do Cais do Ginjal

Apesar de ainda não haver uma certeza sobre o futuro do Cais do Ginjal, os pescadores sabem que um dia poderão perder a autorização para pescar na área. Embora os planos de requalificação da região sejam discutidos há anos, até ao momento, não percebem mudanças significativas. No entanto, existe a preocupação de que, eventualmente, estes pescadores sejam afastados do seu local de trabalho e percam a conexão com o mar.

O projeto de Camilla Watson, ao retratar e preservar a memória destes pescadores, levanta uma importante questão: quando o desenvolvimento chegar àquela zona, o que restará da memória destes trabalhadores do mar? A artista acredita que eles são uma parte integrante da cidade que precisa ser recordada e celebrada. O seu trabalho procura manter viva a lembrança desta comunidade, mas também chamar a atenção para a importância histórica e cultural dos pescadores do Cais do Ginjal.

Camilla Watson: Uma Artista Envolvida na Comunidade

Camilla Watson é uma fotógrafa britânica que se mudou para Portugal em 2007. Antes de se instalar em Almada, viveu por quatro anos em São Paulo, Brasil, onde desenvolveu um interesse pela intervenção comunitária. Durante a sua estadia na cidade brasileira, trabalhou em projetos fotográficos, mas também ensinou fotografia para crianças que viviam numa favela, em colaboração com a ONG Meninos do Morumbi.

A paixão de Camilla por Lisboa e o seu envolvimento com a comunidade começaram quando ela se apaixonou pela cidade durante uma viagem de trânsito para São Tomé e Príncipe. Decidiu, então, mudar-se para a capital portuguesa e viver na Mouraria até 2018, quando atravessou o rio e se estabeleceu em Almada.

Na Mouraria, Camilla iniciou projetos comunitários e de homenagem aos moradores. Em 2009, começou a espalhar retratos dos residentes pelas paredes dos bairros históricos de Lisboa como forma de homenagear a comunidade local. O que inicialmente era uma exposição temporária tornou-se uma exposição permanente, perpetuando a tradição dos bairros. Estas imagens continuam a fazer parte da paisagem da Mouraria, do Castelo e de Alfama, mesmo com a saída de alguns retratados dessas áreas.

Camilla Watson acredita que os seus projetos fotográficos devem ser acessíveis a todos, por isso, coloca-os em espaços públicos para que as pessoas possam observar e interagir. O seu objetivo é usar a fotografia como uma forma de fomentar a inclusão social e dar visibilidade a pessoas que muitas vezes são esquecidas. Vê seu trabalho como uma oportunidade de fazer a diferença e criar mudanças positivas na sociedade. Pode saber mais sobre o trabalho de Camilla Watson aqui.

O Futuro do Projeto “A Maré e o Pescador”

Graças ao financiamento do programa Mural 18, Camilla Watson conseguiu imprimir as primeiras seis fotografias para a exposição “A Maré e o Pescador”. No entanto, o seu objetivo é continuar a colocar mais imagens ao longo do Cais do Ginjal, guiando aqueles que passam pela área numa viagem pela memória do espaço. Também recebeu autorização do Porto de Lisboa para instalar uma pedra maior perto do Terminal Fluvial.

Atualmente, Camilla está a angariar fundos para dar continuidade ao projeto, esperando contar com o apoio de organismos públicos ou da Câmara de Almada. Ela acredita que Almada, sendo uma terra de pescadores, precisa de um museu que preserve a memória desta comunidade. Os pescadores são uma parte essencial da cidade e a sua história precisa ser lembrada e celebrada. O projeto “A Maré e o Pescador” é o seu contributo para esta causa.

O projeto “A Maré e o Pescador” encabeçado pela fotógrafa Camilla Watson é uma iniciativa emocionante que visa preservar a memória dos pescadores que resistem no Cais do Ginjal. Através de retratos únicos e uma abordagem criativa na exposição das imagens, Camilla procura dar visibilidade e voz a estes trabalhadores do mar, muitas vezes esquecidos ou invisíveis aos olhos da sociedade.

O futuro do projeto “A Maré e o Pescador” depende do apoio da comunidade e de entidades públicas. Com a continuidade do projeto, espera-se que a memória dos pescadores do Cais do Ginjal seja preservada e celebrada, garantindo que as suas histórias e contribuições não sejam esquecidas.

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