Na azáfama dos dias, a frase que mais ouço entre pais e mães é: “Estou exausto!” Vivemos numa era onde a agenda das crianças está tão cheia como a dos adultos e onde a pressão para ser o pai perfeito, aquele que cozinha de forma saudável, estimula o desenvolvimento cognitivo e se mantém sempre tranquilo, se tornou demasiado exigente. O nível de exigência e cansaço que nos impomos, vem dificultar os resultados que desejamos, de ter uma boa relação com os nossos filhos e de educar crianças e jovens equilibrados e respeitadores.
E se a solução para este cansaço crónico não passasse por aumentar o esforço, mas por mudar a forma como nos relacionamos com os nossos filhos?
A sociedade atual convenceu-nos de que a boa educação é proporcional à quantidade de atividades, recursos e supervisão constante que oferecemos.
Este modelo de “pais helicóptero” gera um ciclo de exaustão: quanto mais cansados estamos, menos paciência temos, quanto menos paciência temos, mais recorremos a gritos ou castigos e quanto mais conflito existe, maior é o desgaste emocional.
A parentalidade positiva surge aqui como um contraponto libertador, em que o foco não deve estar na performance ou no controlo rígido do comportamento, mas na qualidade da relação.
O Poder de uma boa relação
Fazer diferente significa entender que a disciplina não é algo que fazemos contra a criança, mas sim com a criança. Quando tentamos controlar cada passo dos nossos filhos através de ordens constantes, o desgaste é mútuo. A parentalidade positiva propõe:
1. Trocar a punição pela autonomia: Em vez de gastarmos energia a controlar e castigar, podemos estabelecer consequências lógicas e naturais. Se o nosso filhos sabe o que se espera dele e participa na criação das regras, a necessidade de supervisão constante diminui gradualmente, aliviando a nossa carga mental.
2. Momentos especiais vs estar sempre presente: Ninguém consegue ser um animador infantil a tempo inteiro. O segredo é substituir a presença física exausta por 15 minutos de tempo de qualidade diário, onde o foco é totalmente o nosso filho. Isto preenche o copinho das emoções do nosso
filho, reduzindo comportamentos desviantes em forma de chamadas constantes de atenção, que tanto cansam os adultos.
Cuidar de Quem Cuida
Um dos pilares mais ignorados na educação é que o estado emocional dos pais é o termómetro da casa. Na Parentalidade Positiva a autorregulação é um pilar importante, pois fazer diferente implica aceitar que, para sermos os melhores pais, precisamos de descanso e de autocuidado.
Quando nos permitimos dizer “agora não consigo falar porque estou zangado, vou respirar e já volto”, não estamos a falhar, estamos a ensinar autorregulação, inteligência emocional pelo exemplo. Este desvio da perfeição para a humanidade reduz drasticamente a nossa pressão interna.
Estratégias para aliviar o cansaço
Para transitar para este modelo e reduzir o cansaço, podemos implementar pequenas mudanças na dinâmica familiar, gradualmente.
Simplificar as rotinas: Menos atividades extracurriculares podem significar mais tempo para brincar livremente, o que é essencial para o desenvolvimento cerebral. Do nosso lado, uma organização realista do que cabe em cada dia, com momentos de trabalho, autocuidado, cuidar da casa, dos filhos, com prioridades bem definidas, permite que tudo aconteça, sem que nos sintamos pressionados a fazer cada vez mais.
Comunicar de forma assertiva: Em vez de repetirmos a mesma indicação dez vezes, que gera exaustão mental, devemos baixar-nos ao nível do nosso filho, fazer contacto visual e pedir cooperação.
Delegar e Partilhar: Já ouviu este ditado africano? “É necessária uma aldeia para educar uma criança!”
Na parentalidade positiva defendemos a necessidade desta aldeia, pois aceitar ajuda e dividir tarefas é fundamental para mantermos a nossa sanidade mental e equilíbrio.
Menos é mais
O segredo para uma parentalidade mais leve não reside em lermos mais livros ou inscrevermos os nossos filhos em mais atividades.
Reside em desacelerar. Quando o nosso foco muda para estes pontos o conflito diminui e a harmonia aumenta.
No final do dia, o que as crianças mais precisam não é de pais perfeitos e exaustos, mas de pais presentes, reais e emocionalmente disponíveis.
Se a tua parentalidade estiver difícil, sabe que “A Parentalidade se vive melhor quando acompanhados!”, Carla Escada.
Sobre a Autora.
Mãe de dois, Orientadora Parental, Coach Infanto Juvenil. Professora de formação, apaixonada por questões da família, desenvolvimento infantil e educação. Desde 2021 que se dedica à área da Parentalidade sendo pós-graduada em Parentalidade e Educação Positivas e Inteligência Emocional pela Escola da Parentalidade e Educação Positivas. Ao longo da sua carreira desempenhou diversos cargos e funções nas áreas de Educação e Parentalidade. Atualmente, através da Orientação e Aconselhamento Parental, Coaching Infanto Juvenil e Programas de Desenvolvimento de Competências capacita famílias, profissionais de educação, crianças e jovens. Faz parte da equipa de Orientadores Parentais da Escola da Parentalidade Positiva portuguesa. “Cuido do essencial, a relação entre pais e filhos.”
