Ator profissional desde 2012, Mário Abel descobriu no Improv uma paixão, onde afirma que se podem tirar várias lições para a vida fora de palco. Com mais de 10 anos a improvisar em palcos, em Portugal e no estrangeiro, foi no Barreiro encontrou uma casa e onde quer fazer do improviso um hábito, através da sua Plataforma Improv, pois como diz, “há muita oferta em Lisboa, pouca deste lado do rio” e tanta coisa para viver com o improviso, no palco e fora dele.
1 — Como é que começou a Plataforma Improv?
A Plataforma Improv nasceu de duas necessidades que andavam de mãos dadas. Por um lado, havia uma vontade muito concreta de trazer o improviso para a Margem Sul — havia muita coisa a acontecer em Lisboa, mas do lado de cá do rio a oferta era quase nula. Por outro, quando olhei para o mercado das formações corporativas, percebi que faltava algo diferente: formações que usassem mais o corpo e a voz, que fossem genuinamente práticas em vez de apenas teóricas, e que se construíssem a partir dos princípios fundamentais do
improviso — aceitação, escuta, presença, colaboração. A maior parte das formações que via eram muito sentadas, muito PowerPoint, muita oralidade e pouca prática, e o improviso é precisamente o oposto disso. Foi dessa tensão que surgiu a Plataforma. Tem sido uma viagem muito bonita.
2 — Fala-me um pouco sobre os cursos de improvisação — que expectativas podem as pessoas ter?
O que criámos é um percurso estruturado em três níveis progressivos, cada um com 32 horas ao longo de três meses — ou seja, uma sessão de duas horas por semana. No Nível 1, os Fundamentos, trabalhamos os pilares do improviso: presença, escuta, espontaneidade, confiança em grupo. É o ponto de partida para qualquer pessoa,
independentemente de experiência. No Nível 2, entramos na construção de cenas, personagens, relações, conflito, narrativa. E no Nível 3, o improvisador começa a assumir-se como criador e performer — explora formatos, arrisca, e pode até chegar a apresentações públicas. Para quem quiser continuar depois, existe ainda o
PLATAFORMA_CLUB, onde se trabalha o improviso de forma contínua, em grupo, com convidados, e com a criação semestral de um formato original. Há mesmo muito por viver aqui.
3 — São só para profissionais das artes do espetáculo, ou qualquer pessoa pode fazer?
Absolutamente qualquer pessoa. É mesmo essa uma das ideias centrais da Plataforma: o improviso é para todos. Não é preciso ter qualquer experiência em teatro, em dança, em expressão corporal — nada. Temos tido nas nossas turmas e workshops, professores, engenheiros, pessoas de recursos humanos, estudantes, reformados. O que une esta gente toda é a curiosidade e a vontade de experimentar. Os cursos são desenhados de raiz para
serem acessíveis, para criarem um ambiente seguro onde o erro é bem-vindo e o riso é natural. A técnica vem com o tempo; o que pedimos à entrada é apenas disponibilidade para jogar.
4 — Falaste da importância da improvisação fora do palco — em que outras facetas da vida achas que o treino de improviso tem lugar?
Em quase todas, honestamente. No mundo profissional, isso é cada vez mais evidente — por isso desenvolvemos um conjunto de formações corporativas com improviso pensadas para equipas e organizações. Temos três programas distintos: o SPEAKEASY, focado na comunicação oral, na presença em público e no storytelling — ideal para quem precisa de fazer apresentações ou falar com mais impacto e confiança; o ON THE SPOT, que trabalha a agilidade, a colaboração e a capacidade de responder bem ao inesperado em contexto de
equipa; e o CREATIVITY/FLOW, dedicado ao pensamento criativo, à resolução de problemas e à inovação. Para além das formações, temos também o team building de improviso, que é uma experiência mais lúdica e dinâmica mas igualmente transformadora — as equipas saem de lá diferentes, com outra energia, outra ligação entre elas. E os estudos apoiam isto tudo: há pesquisas que mostram aumentos significativos em colaboração, comunicação e capacidade de adaptação nas organizações que investem neste tipo de abordagem. Mas fora do contexto corporativo, o treino de improviso muda também a forma como comunicamos no dia a dia, como gerimos o stress, como estamos presentes nas relações — pessoais, familiares, o que for. Temos também de ter em conta que a sociedade em que vivemos se transformou de forma abrupta desde o surgimento dos telemóveis – que
em muito nos aproximou e globalizou a nossa experiência do ser – mas que nos afastou dos contactos reais, da aproximação uns aos outros, do comunicar, do brincar e do estar. O Improviso vem de certa forma colmatar essa perda, que se tem demonstrado gravosa principalmente nos mais jovens.
5 — Nos espetáculos, é mesmo tudo improvisado, ou já levam alguma coisa combinada?
É mesmo tudo criado no momento — não há guião, não há cenas ensaiadas, não há texto escrito. O que pode existir são formatos, que funcionam como regras do jogo: definem a estrutura, o tipo de cenas, a duração, a forma como se pedem sugestões ao público. O Improviso é o caminho para a criação que é caótica e sem controlo, e para tirarmos o melhor partido do que fazemos, usamos ferramentas estudadas e aprimoradas pelos que pensam esta técnica. Para isso existem regras para tirar partido de toda essa criatividade. É um pouco como o jazz — os músicos conhecem os acordes, conhecem as regras da harmonia, mas o que tocam em cada momento é completamente novo. No improviso teatral é igual: conhecemos as ferramentas, trabalhamos muito a escuta e a capacidade de construir em conjunto — e depois é confiar. O público participa sempre, dando sugestões que servem de ponto de partida para tudo. É isso que torna cada espetáculo único e irrepetível.
6 — Quanto a próximas iniciativas, já há alguma coisa que possas revelar?
Sim, há duas coisas muito concretas já à porta. A mais imediata é o BACALOBACO, que acontece já a 20 de março n’O Espaço, no Barreiro — é o nosso formato de espetáculo short-form, com energia alta, muito humor e muita participação do público. É uma noite para rir, para nos surpreendermos e para mostrar o improviso ao vivo com toda a sua imprevisibilidade. Depois, a 7 de abril, arranca uma nova Turma de Improviso Nível 1 nos
Penicheiros, em Barreiro — três meses de sessões semanais para quem quer começar do zero ou consolidar os fundamentos. As vagas são limitadas, por isso quem estiver a pensar entrar, que não espere muito. Podem consultar todas as informações no site da Plataforma Improv.
